Quando comecei a trabalhar no marketing digital, existia uma esperança e um propósito: fazer marketing de um jeito diferente, que educasse as pessoas para que elas pudessem tomar decisões por si próprias. Isso se chamava inbound marketing.
A ideia de empoderar pessoas para que elas pudessem compreender se, quando, como e por que precisavam de determinada coisa era contagiante. E de fato os primeiros anos do inbound marketing e do marketing de conteúdo foram construídos em cima dessa ideia.
Mas em 15 anos, muita coisa mudou. O marketing se transformou em um campo de competição acirrada, no qual não importa quem ou quantas pessoas precisam ser manipuladas para que uma empresa atinja o seu objetivo. O importante é converter.
Essa corrida por resultados rápidos e ganhos astrômicos em uma única tacada converteu-se na principal estratégia do mercado. E com o acesso massivo a ferramentas de inteligência artificial, o que temos visto é a proliferação de um único pensamento, uma única forma de fazer as coisas, uma comunicação robotizada, sem personalidade e sem alma.
Não bastasse a gradativa idiotização das pessoas, existe o custo econômico, social e ambiental dessa corrida. Cada 100 palavras geradas pelo ChatGPT consomem 500 ml de água e a mesma energia para manter 14 lâmpadas de led acesas por 1 hora.
Diariamente, são feitas cerca de 2 bilhões de consultas ao ChatGPT. Se cada uma resultasse em apenas 100 palavras, já teríamos 1 bilhão de litros de água desperdiçados em data centers, enquanto mais de 2 bilhões de pessoas no mundo não têm acesso a água potável.
Some a isso as milhares de consultas no Claude, Perplexity, Copilot, Gemini, Watson, e por aí vai. Percebe como a conta não fecha? Estamos literalmente queimando o planeta e o nosso futuro em nome do deus mercado.
Foi com essa preocupação em mente e o espírito de alertar que não podemos mais agir como se os recursos fossem infinitos, que profissionais de diversas áreas lançaram um manifesto por um marketing regenerativo. E é sobre essa nova — e ancestral — visão que quero conversar com você hoje.
O que é marketing regenerativo?
O marketing regenerativo é um conjunto de práticas regenerativas que busca a geração de valor a longo prazo para as comunidades, os ecossistemas e as empresas, respeitando o meio ambiente e atuando de forma proativa para recuperar, regenerar e curar espaços que foram degradados pelo extrativismo desenfreado.
Essa filosofia vai além da sustentabilidade porque envolve a formação de redes de cooperação entre empresas, comunidades, governos, organizações não-governamentais e outros atores da sociedade, visando o bem comum.
Trata-se de uma iniciativa que desmonta o discurso de crescimento infinito e estabelece relações mais equilibradas, que permitam a recuperação do meio ambiente, respeitem comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas, entre outras, e assim garantam o futuro de todas as espécies — humana e não humanas.
O marketing regenerativo é a oportunidade de revermos a mentalidade egocêntrica e destrutiva que tomou conta de boa parte das empresas e empreendedores nos últimos e nos voltarmos para uma comunicação mais humana, compassiva e integradora. E as mulheres têm um papel central nessa virada de chave.
O papel das mulheres como agentes de transformação para o bem
Dividindo-me entre duas atividades bastante antagônicas nos últimos anos — marketing e terapias de bem-viver para mulheres —, o que percebo é que uma grande parte de nós está exausta.
Não só fisicamente, com dupla e até tripla jornada, mas exaustas de um mundo no qual a performance teatral nas mídias sociais é mais importante do que anos de estudo e experiência.
E nesse teatro de narcisismo crônico, os homens se destacam com louvor. Não porque sejam mais qualificados, mas porque têm um time de mulheres nos bastidores fazendo-os parecer príncipes encantados.
Cansadas dessas dinâmicas, decidimos trilhar novos caminhos, mais alinhados com os nossos valores e que gerem impacto real na vida de outras pessoas.
E assim nos tornamos verdadeiros agentes de transformação, formando pequenos grupos e atuando nas comunidades, curando e regenerando aquilo que é massacrado dia a dia pelo patriarcado, pelo capitalismo e pela necropolítica.
Fazemos literalmente um marketing regenerativo, que milita e apoia causas, que resgata os saberes femininos, que estende a mão ao próximo, porque esse é fio vital que permitiu que a humanidade chegasse até aqui: a consciência da interdependência de todas as coisas.
Somos o último bastião que pode mudar o cenário apocalíptico que se nos apresenta. E estamos assumindo essa missão mesmo que de forma inconsciente, mesmo que intuitivamente, porque a nossa sobrevivência depende da sobrevivência do planeta. E milenarmente, somos a ponte que conecta vida e existência.
Por que o marketing regenerativo é o futuro do marketing?
Se você lê minimamente os jornais e acompanha profissionais sérios, sabe que não há escapatória. Ou mudamos a nossa forma de nos relacionarmos com o planeta ou toda a vida perecerá.
Esperar que governos e megacorporações façam alguma coisa por si mesmos é ilusão. Basta ver a nova sombra colonialista projetada dos Estados Unidos sobre países ricos em recursos naturais e a nova onda de governos entreguistas que se alastra pela América Latina.
A mudança começa em nossas casas, em nossos pequenos negócios, em nossos círculos de mulheres. A consciência de um novo marketing começa ao nos comunicarmos com as pessoas mais próximas de nós: nossas famílias, nossas amigas, nossas clientes e parceiras de negócios.
O resultado virá, eu te garanto. E é isso que você pode esperar dessa virada de chave:
Confiança e reputação
Se você vislumbra um novo mundo, saiba que muitas mulheres pensam exatamente como você. A questão é que estamos acuadas, sem saber por onde começar ou quem falar. Mas basta você começar a falar, que elas surgem e se identificam.
Nesse sentido, investir no marketing regenerativo é a melhor forma de construir confiança junto à sua comunidade, suas clientes, suas pacientes, suas parceiras de negócios. À medida que a confiança cresce, vem as indicações, as menções, os compartilhamentos de ideias. E a sua reputação cresce.
Valor a longo prazo
Nos últimos anos, o marketing digital foi inundado pelos famosos lançamentos e a cultura do “6 em 7” subiu à cabeça de uma grande parcela das pessoas, como se isso fosse possível para todas as pessoas, todos os meses.
Essa ideia de enriquecer com uma única live levando milhares de pessoas a comprarem um curso criou uma ideia equivocada sobre resultados no marketing. Se isso fosse sustentável, você acha que empresas como Boticário, Natura, Havaianas, Granado, entre tantas outras, não estariam fazendo o mesmo?
Elas miram no longo prazo. E o marketing regenerativo tem essa visão também, com o diferencial que não olha apenas para si mesmo, mas para todo o ecossistema que impacta.
Reparação e regeneração
O marketing regenerativo vai além da sustentabilidade. Mais do que reduzir seus impactos ambientais, sociais e econômicos, ele atua de forma proativa na reparação e regeneração de ecossistemas. Ele está de olho em como suas ações podem impactar positivamente a vida das pessoas e do planeta.
Trata-se de tomar a responsabilidade para si, mesmo que o dano não tenha sido causado por você. É o que os povos originários fazem o tempo todo, assim como movimentos como o MST. Se eles podem, por que nós não podemos? Não somos moradoras do mesmo planeta?
Criatividade e inovação
Nós, mulheres, somos criativas por natureza. Fazemos pintura, crochê, tricô, bordado, cerâmica, tecidos… Essa habilidade milenar nos torna as melhores pessoas para olhar para um problema e encontrar uma solução que seja criativa, fácil e que possa ser ensinada.
Nós não deixamos de compartilhar nossos conhecimentos por medo de que outras pessoas possam usá-los. Pelo contrário, nos reunimos em roda e fazemos as coisas juntas, trocando ideias, ensinando umas às outras. Esse é o verdadeiro poder de liderança: a liderança compartilhada.
Facilidade de adaptação
Quem opta pelo marketing regenerativo está sempre em busca de gerar impacto positivo na sociedade. E isso nos dá uma vantagem porque somos as rainhas da flexibilidade.
Somos filhas, mães, tias, madrinhas, profissionais, amigas, clientes, namoradas, esposas… desempenhamos todos esses papéis fluindo de um para o outro. Estamos acostumadas a fazer várias coisas ao mesmo tempo sem que percebamos isso.
Nossas mentes fluem. E por isso podem se adaptar mais facilmente a novas realidades, novas propostas e novos desafios.
Como começar no marketing regenerativo?
Antes de mais nada, o marketing regenerativo é uma filosofia de vida que coloca o bem-estar de todos os seres no centro da sua estratégia de marketing.
Você pode ser uma costureira procurando um jeito de gerar mais valor para as pessoas do seu bairro ou ser uma grande empresária com capacidade para impactar um país inteiro. Não importa. Sempre há formas de contribuir. Só precisamos identificar a sua maneira de fazer isso. Portanto, comece com esses passos:
Identifique suas áreas de impacto
O primeiro passo para implementar o marketing regenerativo é entender como o seu empreendimento impacta o mundo à sua volta. Por exemplo: se você é costureira, o que faz com as sobras de tecido? Joga-as no lixo ou aproveita para fazer algum outro tipo de peça?
O simples gesto de encontrar uma maneira de reciclar as sobras de tecido já está impactando o meio ambiente. E ao comunicar isso da forma correta, você demonstra mais valor para as suas clientes.
Se você é uma empresária, quem está contratando? Pessoas que precisam se deslocar duas horas de carro até o trabalho ou pessoas que fazem parte da comunidade, que compram da sua empresa?
Desenhe um modelo de negócio regenerativo
Lembra que a regeneração tem que estar no centro da sua estratégia? Então comece a pensar como seus produtos e serviços podem promover essa regeneração.
Usar as sobras de tecido para confeccionar peças de roupas para doação é um bom exemplo. No comércio, você pode transformar uma porcentagem de cada venda em um fundo para distribuir mudas de árvores pelo seu bairro ou então pode reverter o dinheiro para um projeto social voltado para as crianças do bairro.
Existem milhares de ideias e cada uma de nós pode encontrar uma forma de espalhar essas sementinhas de esperança e de futuro.
Construa redes de cooperação
Converse com outras empresas ou empreendedoras para construir uma rede de cooperação. Quanto mais pessoas estiverem unidas por um propósito, maior será a transformação.
Você pode criar um verdadeiro ecossistema regenerativo construindo parceiras que se complementam no seu setor e aumentando o impacto das suas iniciativas.
Comunique-se de forma transparente
Um dos pilares do marketing regenerativo é ter uma comunicação clara e transparente com as pessoas, mostrando os resultados das suas ações. Afinal, estamos falando de construção de confiança, lembra?
Aqui temos que tomar cuidado para evitar o greenwashing, isto é, estratégias fraudulentas de marketing que dizem que a empresa é sustentável ou regenerativa, mas que no fundo é uma completa mentira.
Se você gostou de saber mais sobre o marketing regenerativo e quer ficar por dentro de outras estratégias de comunicação mais humanas e sustentáveis, não pare por aqui. Assine a nossa newsletter e receba todas as novidades por e-mail!
Um abraço e a gente se fala no próximo artigo.
Eve.

